
– Amiga, fiquei velha.
– O quê?
– É... Senti.
– Como assim?
– Te falei que estou tendo umas aulas com o primeiro ano? Então, dia desses a professora de semiótica passou umas propagandas “antigas” – friso no adjetivo – E eu conhecia todas, claro. A do leite caramelizado com flocos crocantes, a do primeiro sutiã, todos aqueles clássicos. Sabe qual tinha também? Aquela do “o tempo passa... o tempo voa...”
– E a poupança Bamerindus continua numa boa!
As duas: – É a poupança Bamerindus!
– Pois é! E você acredita que ninguém conhecia? Eu cantei a música sozinha. Só eu e o carequinha. Quando o vídeo acabou tava todo mundo olhando pra minha cara.
– Você fez o “dus, dus, dus” do final?
– Fiz...
Gargalhando: – O “dus, dus, dus” é foda, vai?
– E não parou por aí. A professora começou a falar sobre a campanha do Collor, o conceito de que ele iria “colorir” o Brasil e tal, e eu comentei sobre um comercial que está passando na TV agora, acho que é do PPS, que sugere que o governo vai confiscar a poupança como o Fernandinho fez. Você viu isso?
– Vi. É do PPS mesmo. Achei uma irresponsabilidade sem tamanho. Rolou até uma corrida às poupanças. No mês passado, o povo sacou mais do que depositou. Pra você ver como o fantasma do confisco ainda é forte. E é óbvio que eles estão se valendo disso.
– Esse tipo de comparação, que se sustenta na ignorância do povo, me deixa puta da vida. Porque as duas medidas são completamente diferentes, em épocas extremamente distintas, realidades econômicas opostas, fases do capitalismo incomparáveis. Enfim... nada, nada a ver.
– Mas parece que vão ter que mudar mesmo. Os juros caíram muito e aí os outros investimentos passaram a ter quase o mesmo rendimento. Só que a poupança não paga imposto de renda e não tem risco nenhum. Tô por dentro, amiga. Cobrir economia tem dessas coisas.
– E o que o governo quer, falando em português claro, é que a galera gaste dinheiro sem dó.
– Bom, nada se compara ao que o Collor fez, mas eu espero que não acabem com as minhas parcas economias, né? E o que que a piralhada tem a ver com isso?
– Eu engatei num papo animadíssimo com a professora sobre o governo Collor, sobre as mutretas, PC Farias, Casa da Dinda e a época que o escândalo veio à tona. E a classe em silêncio absoluto. Todo mundo com cara de conteúdo, ouvindo atentamente a conversa, mas sem falar nada. Aí eu não aguentei. Tive que perguntar se eles “conheciam a história” do impeachment do Collor, porque lembrar eu já tinha percebido que não seria o caso.
– E aí?
– Alguns acenaram com a cabeça, outros olharam pro lado. E eu apertei: “Vocês sabem que ele ‘caiu’ por causa de uma Elba, né?”
– Nossa, é mesmo!
– Aí um aluno respondeu todo empolgado: “Ah! Aquela feiosa que cuidava da economia?”. Morri de rir, Ni. Eu estudo com gente que usava fralda no impeachment do Collor!
– Ah, Dani... Mas também não dá pra ser que nem aquele seu ex-namorado... aquele mais velho, que “se recusava” a conversar com quem não tinha visto a Copa de 82, sabe? Puta cara mala!
– Sei. Mas a Copa de 82 e o impeachment do Collor nem se comparam, né, Ni? Tô falando da história do Brasil, de política. Ter profundo desconhecimento sobre esse episódio revela, no mínimo, displicência! Querer ser jornalista sem saber distinguir uma mudança no rendimento de um congelamento não dá. Pelo amor de Deus.
– Tem razão, mas nem por isso a Copa de 82 tem menor importância, heim? Poxa, a seleção canarinho do mestre Telê! Futebol ofensivo, criatividade em campo, Sócrates e Zico brilhantes no ataque. Metemos 3x1 na Argentina de um tal de Maradona... A Copa do Mundo marca uma geração!
– E você? Viu?
– Vi no You Tube!